O que vamos aprender hoje?!

Neste ano acompanhei algumas crianças em idade escolar e pude pensar em algo que me levou à reflexão. O quanto nosso tradicional sistema de avaliação, com provas e notas, nos faz perceber nosso valor enquanto seres humanos únicos que somos. As crianças, quando iniciam as atividades no segundo ano, normalmente passam a ser avaliadas por este modelo e seguem sua vida escolar nesse formato. Mas antes disso, no ensino infantil, pré e primeiro ano, recebem outro tipo de acompanhamento, com olhares únicos e grande parceria com a família nessa grande caminhada para aprender a ler, escrever e conviver.

Hoje, assim como sempre, olhamos para as crianças em busca de seus resultados e objetivos, muitas vezes, por meio da nota tirada a cada prova. Coisa que gera aquela tão conhecida tensão no dia anterior, no próprio dia e quando a criança recebe o resultado da prova, sua tão esperada nota. Quanto tirei? E os outros? O que meus pais vão achar? Vergonha? Alegria? Sou bom? Ruim? Inteligente?
Lembro-me dessa tensão claramente. Mesmo estudando muito, os esforços nunca eram suficientes para acabar com ela. Outros pareciam não ligar tanto, mas quando recebiam o boletim com a nota baixa, passavam a viver o estresse dentro de casa, na cobrança e na busca por passar de ano, por não pegar recuperação nas provas finais.

Será que se tivéssemos avaliações mais amplas que buscassem conhecer, acompanhar, olhar para o trajeto desta criança e mais, que fossem buscar outras aptidões, que na prova não aparecem, ainda teríamos crianças tão inseguras, pré-adolescentes tão resistentes e contrários ao que lhes faz bem: se dedicar a escola, passar de ano, seguir com amigos, tirar férias mais cedo? Mesmo numa fase da vida tão questionadora…
Como seria olhar para a nota de um filho no início desta relação com as provas e deixar claro o quanto essa nota não diz quem ele é. E sim, o que ainda lhe falta praticar. Como seria se tivéssemos como cuidar e valorizar, na prática diária, as boas atitudes com si mesmo e com o outro dentro de uma estrutura tão complexa, com conteúdos tradicionais, também necessários? Será que mais para frente teríamos crianças mais engajadas em aprender?

Acredito que podemos ter crianças e adolescentes mais conectados ao grande aprendizado que a vida escolar promove: a arte de conviver, trocar, aprender na relação com o outro e se colocar como eterno aprendiz, disponível e responsável, no sentido mais profundo da palavra, daquele que percebe o quanto toda ação produz um resultado que será vivido por ele mesmo. Crianças que aprenderão matemática, português, história e geografia, mas que o farão por meio do encontro e, nessa mesma etapa, o que ainda precisa de treino poderá ser trabalhado ainda nesta relação tão importante entre dois seres humanos: o professor aluno e seu aluno professor. Sem falar da colaboração e participação da família neste processo, que em vez de simplesmente olhar os números, pode construir essa avaliação junto com a escola e por que não, aprender também.

Aprendendo juntos

Hoje, algumas instituições de ensino e professores buscam essa desafiadora direção. Promovem trabalhos em grupo, construções de maquetes, vídeos, projetos escolhidos pelos alunos, que descobrem sobre o que gostariam de pesquisar. Consideram o processo percorrido pelo aluno e não apenas seu resultado. E onde foi parar a matemática, o português? Eles, assim como todo o imenso conteúdo, continuam lá, mas são aprendidos nessa relação entre pessoas, descobrindo e aprendendo juntos. Mais trabalhoso do que a prova de múltipla escolha com certeza, tanto para professores quanto para os alunos, mas seu resultado também é outro. E quem sabe, com a certeza de estar sendo visto em suas habilidades e desafios, essa tensão ou irrelevância possa se transformar na construção conjunta da pergunta: o que vamos aprender hoje?
Com carinho e gratidão

Daniella

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