O Déficit de atenção antes do Déficit de atenção.

O Déficit de atenção antes do Déficit de atenção!

Como psicóloga gostaria de propôr, por meio deste texto, uma grande reflexão a nós, pais, sobre o tema déficit de atenção. Nos dias de hoje, quando uma criança começa a apresentar dificuldades na escola – seja distração, desobediência ou algum tipo de agressividade-, a conclusão a que se chega é que se trata de um tipo de déficit de atenção ou hiperatividade. Imediatamente começa a corrida dos pais às escolas, psicológicos, pediatras e psiquiatras infantis.

Minha experiência clínica tem demonstrado algo bastante comum. Ao oferecer um encontro verdadeiro com a criança, onde ela possa receber atenção e reconhecimento por ser o que é, sem os carimbos ou chavões sobre suas atitudes, muitos dos comportamentos queixosos tornam-se extremamente leves ou até deixam de existir.

Desse cenário surge algo interessante e preocupante. Como pais, precisamos trabalhar e estarmos atentos à qualidade do olhar que despertamos em nossas crianças. Muitos dos comportamentos apresentados do referido transtorno são, na verdade, resultado dessa relação tão importante e direta que temos com elas. Se considerarmos nossos filhos incapazes, moles ou agressivos, fica praticamente impossível notar qualquer tipo de mudança. Se as pessoas em que as crianças têm total confiança enxergam-nas assim, como então poderiam ser diferentes?

O que tenho observado é que no trabalho intenso com os pais, se o sistema familiar se altera, os comportamentos ou as dificuldades apresentadas por aquela criança se modificam, se acalmam. O tempo passa tão depressa que muitas vezes não nos damos conta do quanto nossos filhotes estão crescidos – e ainda os tratamos como bebês. Em alguns momentos exigimos respeito, mas não conseguimos respeitá-los. E, com a correria de nossas vidas, falta contato físico, visual e tátil.

As crianças destas últimas gerações, inteligentes como são, percebem ser na dificuldade, no problema apresentado e na malcriação que nos têm por inteiro. E esse passa a ser o único canal de comunicação do encontro entre pais e filhos.

Sendo assim, passei a me perguntar se são mesmo as crianças que precisam de ajuda, ou se somos nós adultos. No encontro com os pais percebo que a descoberta desse novo olhar abre portas para novos caminhos e novas possibilidades. Porém, isso exige de nós a sabedoria interna de, em vez de levarmos nossos filhos para resolver os problemas apresentados, conduzir a situação na qual estamos todos implicados, abertos a também mudar e nos recolocar nesta relação tão importante e viva. Caminhar junto de que maneira? Que tal recebendo um convite para realmente olharmos para a situação não como um problema, mas sim como uma informação que carrega em si a possibilidade de uma nova forma, uma mudança.

Quando estamos perdidos é muito bom clamar por ajuda. Porém esse pedido não significa que não podemos fazer nada, que somos impotentes e que a solução do problema está nas mãos do especialista.  A ajuda profissional pode nos auxiliar para transformar o que necessitamos na situação que nos aflige e, com isso, possibilitar o reencontro da nossa potência como pessoas para atuar na transformação desejada em nossas vidas e de nossos filhos.

O convite que faço é para refletir o quanto somos figuras ativas na vivência que nossos filhos têm a respeito de quem são e na construção de suas relações com as pessoas, os fatos, as regras, os desafios e os aprendizados.

Muitos possam estar pensando agora: “será que somos culpados por tudo?”. Gostaria de colocar essa questão da seguinte forma: estamos todos juntos no mesmo barco e para não afundarmos somos todos responsáveis uns pelos outros na construção de relações saudáveis. A partir deste olhar conseguiremos, em vez de nomear sintomas, realmente encontrar, transformar e viver a maravilha de crescermos todos juntos como pais, filhos e como seres humanos!

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