Meu filho bate, ou apanha, e agora?!

Meu filho bate, ou apanha, e agora?!

Há momentos difíceis em que ficamos muito aflitos como pais, seja porque nosso filho está batendo nos amigos, seja porque está apanhando de algum colega de classe.

A primeira coisa a ser feita é garantir que a violência, seja ela física ou emocional, não aconteça dentro de casa. Com isso, nossos pequenos desenvolvem a habilidade de resolver conflitos por meio do diálogo e da expressão corporal.  Quando a violência acontece dentro de casa a criança conta com o exemplo dado pelos pais, que no momento do descontrole aproveitam-se do tapa como forma de resolução dos problemas. Este exemplo a criança também leva adiante na resolução de seus conflitos e, quando se veem sem saída, resolvem seus problemas da mesma maneira que os adultos, na base do tapa.

Por isso é imprescindível que a violência não aconteça de forma nenhuma por parte dos pais. Ao perceber sua irritação interrompa a ação, pois nada mais do que acontecer será proveitoso, educativo ou amoroso.

Até aproximadamente os três anos de idade o tapa ainda pode “escapar” de uma criança para outra, até porque seu repertório verbal para sua argumentação ainda está em desenvolvimento. A partir dos quatro anos a criança já possui alguma condição interna para em situações difíceis comportar-se de outra forma e, caso o conflito prossiga, pedir ajuda a um adulto. O que faz uma criança construir esse caminho é a relação de presença e aprendizado que possui com seus pais, familiares e professores que desde sempre auxiliam na construção diária da noção de causa e consequência, ou seja, aprendem que toda atitude traz um resultado e que ela é responsável pela escolha de suas atitudes.

A criança pequena pode ser convidada, no momento em que dá o tapa, a olhar para o irmão ou amigo atingido e começar a construir este olhar para o resultado de sua ação. Vê-lo triste e poder, de alguma forma, se redimir e ajudar a cuidar do outro são ótimas opções na construção desta relação. Mas não podemos esquecer de que quando a manifestação de carinho ocorre espontaneamente também devemos mostrar para os pequenos o resultado desta ação – o outro feliz e satisfeito com tal atitude.

Quando crianças já com quatro ou cinco anos de idade continuam a bater é que o problema surge e deve ser analisado. Nesta fase as relações horizontais, ou seja, entre os iguais, têm tanta relevância quanto as verticais. Neste momento as amizades surgem com muita força e aquele que bate começa a sofrer o resultado real de tal atitude, a dor de não ter amigos. O perigo deste momento é que devido à construção, desde pequeno, deste comportamento, provavelmente os pais e até mesmo a escola pensam que este menino (a) é agressivo, fazendo deste comportamento uma característica da personalidade desta criança. Provavelmente o que pode ter ocorrido foi um não-desenvolvimento deste caminho para a construção do olhar e encontro com o outro. Por isso vejo esses comportamentos como um grande pedido de ajuda, já que as crianças inteligentes como são e necessitadas do reconhecimento do adulto , quando percebem que mesmo negativamente têm a presença, mantém o comportamento pois a recompensa do olhar vale mais do que qualquer outra coisa.

Neste momento muitas coisas acontecem: os pais daquele que bate ficam desesperados (o mesmo acontece com os pais do que apanhou) e a escola, no meio deste embate, busca atravessar a tempestade muitas vezes atendendo aos pedidos de retirar esta criança da classe ou até mesmo da escola. Com este gesto aquele que já estava considerado como agressivo tem o carimbo da escola e dos amigos como tal. Certamente, poderá ir para outra sala ou mesmo outra escola e nada mudará até que um dia esse menino, talvez junto de sua família, estará no sótão da vida.

Por outro lado saber que um filho apanha na escola não é agradável, e principalmente não é aceitável, afinal de contas as crianças estão na escola para aprender muitas coisas inclusive aprimorar a capacidade de se relacionar. Ensinar um filho a se defender da forma correta faz parte da educação para conviver neste mundo. Mas como será esse direito de defesa? Primeiro a criança tem que saber que ninguém pode agredi-la tanto física como moralmente e que ela obviamente também não pode fazer isso com ninguém. Depois ela tem que aprender a se defender com suas palavras, seu olhar e até mesmo fisicamente, mas apenas segurando o braço ou perna daquele que pretende lhe machucar. Em casos assim a escola pode agir de forma cuidadora ao colocar a presença de mais um adulto cuidando e zelando pelo bem-estar físico de todas as crianças.

Acredito que a participação da escola em parceria com os pais seja imprescindível neste momento e, como acompanho constantemente no consultório, vejo que a reconstrução do olhar dos pais, seguido pelos professores, traz novas possibilidades a esta criança que pode então SER quem ela é e demonstrar isso com novas atitudes. Quando se manifesta um novo posicionamento, novos olhares são restabelecidos e novas relações podem ser construídas, principalmente da criança com ela mesma.  E com tudo isso constrói-se novos encontros entre crianças, entre pais e filhos, entre amigos, levando a todos a chance de novas escolhas e novos resultados.

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